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  • Mar 10 / 2014
O meu Benfica

Benfica, uma paixão eterna!

Por vezes detenho-me alguns momentos a questionar o porquê desta paixão. Como nasceu? Como se mantém intacta? Aliás, reformulando, como vai crescendo com o passar do tempo?

Invariavelmente, estas reflexões levam-me sempre ao meu Avô… Nascido no seio duma família sportinguista, tendo Mãe, Pai (meus bisavós) e irmão fanáticos pelo Sporting (sendo que este último foi inclusivamente atleta e dirigente sportinguista), ainda vê a roleta-russa do amor atribuir-lhe uma sportinguista como companheira de uma vida.

Durante anos a fio, o meu Avô acompanha o Benfica para todo o lado, conciliando a sua paixão clubística com a harmonia do lar, sem nunca deixar esmorecer uma nem descurar a outra.

A dada altura da sua vida, graças aos conhecimentos profissionais que foi acumulando, é convidado a integrar a estrutura do clube. Inicialmente com cargos menores, de pouco relevo, é com mérito que rapidamente vai subindo na hierarquia e é escolhido para representar o Benfica a nível federativo no andebol, a sua maior paixão dentro da própria paixão.

Mais tarde, nos idos anos sessenta, é convidado pelo Dr. Borges Coutinho a integrar a sua lista, onde ocupará o cargo de vice-presidente, ficando ainda responsável por toda a área financeira do clube. Como recusar a proposta? Impossível, claro está.

E então dá-se a revolução em casa… A minha Avó não aceita. Como primeira represália, inscreve a filha (minha Mãe), benfiquista como o Pai, no Sporting e matricula-a nas aulas de ginástica, seguido de mais algumas birrinhas que me escuso a comentar. O meu Avô, impávido e sereno em relação às turbulências do lar, mantém a sua palavra e integra a lista candidata.

Borges Coutinho vence as eleições. O meu Avô é eleito e a guerrilha da minha Avó continua com contornos surreais, sendo que, para cúmulo dos cúmulos, fica-lhe destinada a tarefa de ir levar e buscar a filha à ginástica do Sporting. E aqui podem imaginar o que significa para um benfiquista fervoroso ter uma filha, também ela benfiquista, a praticar desporto no grande rival, sendo que, neste caso particular, há ainda que ter em consideração todo o peso institucional que o cargo de vice-presidente do Benfica acarreta… Contudo, o meu Avô, estóico, aguenta.

Esta situação dura um mês. A minha Mãe, cansada de envergar uma camisola que não era a sua, como protesto não comparece no sarau do Sporting e passado uma semana começa a treinar no Benfica, onde depois se mantém durante vários anos. Já a minha Avó, não resistindo à força do amor, transforma-se numa benfiquista ferrenha e passa a acompanhar o meu Avô em todos os jogos, inclusivamente fora.

Dizem que a fé move montanhas, mas o benfiquismo também. O meu Avô e a minha Mãe são a prova disso mesmo e estes dois “rebeldes” benfiquistas serão sempre os meus exemplos e faróis do benfiquismo. Foi através deles que o benfiquismo ficou gravado no meu código genético e é com as suas memórias que, diariamente, vou alimentando e fazendo crescer esta paixão.

  • Fev 22 / 2014
O meu Benfica

Cabo da Boa Mística

Estamos no aeroporto internacional Oliver Tambo, que é como quem diz de Joanesburgo. Somos um grupo de cinco amigos e estamos à espera do avião para Cape Town., vamos falando, de bola e outras coisas, quando reparo num outro passageiro que espera por ali. Cruzo o olhar com ele uma vez, reconheço-o, volto a passar-lhe a vista em cima e ele acena um educado cumprimento.

Levanto-me e digo ao grupo … porra, não posso perder a oportunidade, vou conhecer o Futre. Apresentei-me, meio hesitante, meio emocionado, essa parte dispensou-se no caso dele e começou o tema futebol.

Íamos todos ver a selecção? Sim disse-lhe, mas que isso não interessava para nada. Diz-me Paulo, fui avançando, como foi vestires aquela camisola? E disse-me o Futre então que já tinha passado por muito lugar, com muito adepto, com muita gente, mas … mas, disse-me, nada o preparara para um dia como o do primeiro treino. Não posso explicar-te, dizia, é difícil, é um mundo diferente, arrepia-te perceberes tanta grandeza.

E a final da Taça, Paulo, conta-me como foi! Foi uma tarde louca e mágica, foi uma tarde de muito mais que futebol, foi essa palavra que usam, foi místico, apetecia ficar parado no tempo e viver aquele momento sem querer que acabasse.

Voltei ao lugar e por mim estava feito o dia, já nem precisava de ver jogo nenhum, mas lá chegou o avião e seguimos para sul. Chegados ao Cabo, instalámo-nos e no dia seguinte tratámos de arranjar um táxi para dar um passeio e para nos levar ao Estádio. Perguntei ao motorista se conhecia o Benfica, sorriu e disse que não. E Portugal? Também não! Sentei-me no banco da frente e enquanto a malta se encantava com a paisagem contei-lhe do episódio do aeroporto, contei-lhe do Futre no Benfica. Depois falei-lhe do Chalana, do Vítor Batista, do Bento, do Eusébio, do Estádio da Luz em dias de enchente. Quando parámos para se visitar nem me lembro o quê .. o pessoal foi de máquina fotográfica na mão e eu fui beber um café com o homem.

Falei-lhe do Águas, do Coluna, do Enke, do Fehér, do Alves das Luvas Pretas, das tardes de noventa mil pessoas, ao sol ou à chuva, partilhando uma Vida e uma Paixão. No fim do passeio, já sabia um pouco de Cosme Damião, da água Vitória, do Rui Costa e até do Rogério Pipi.

Levou-nos então à bola e nós assistimos a uma goleada da selecção contra uns coreanos. Estava a chover e nem me aqueceu nem arrefeceu.

À saída, esperava-nos o Táxi Driver convertido. Não perguntou pelo resultado, disse-me apenas … João, are you going to tell me more stories about Benfica?

Contei. Mas mais que isso. Ofereci-lhe um cachecol que guardava há anos e que levava sempre para os jogos. Um cachecol fantástico encarnado e branco.

O homem comoveu-se e atreveu-se a dizer-me: tenho dois filhos, não posso levar só um! Pois não. Fui ao saco e tirei outro para lhe oferecer.

Um Pai é assim, ainda que tenha acabado de converter-se.
Não esquece os filhos.

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