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  • Fev 22 / 2014
O meu Benfica

Cabo da Boa Mística

Estamos no aeroporto internacional Oliver Tambo, que é como quem diz de Joanesburgo. Somos um grupo de cinco amigos e estamos à espera do avião para Cape Town., vamos falando, de bola e outras coisas, quando reparo num outro passageiro que espera por ali. Cruzo o olhar com ele uma vez, reconheço-o, volto a passar-lhe a vista em cima e ele acena um educado cumprimento.

Levanto-me e digo ao grupo … porra, não posso perder a oportunidade, vou conhecer o Futre. Apresentei-me, meio hesitante, meio emocionado, essa parte dispensou-se no caso dele e começou o tema futebol.

Íamos todos ver a selecção? Sim disse-lhe, mas que isso não interessava para nada. Diz-me Paulo, fui avançando, como foi vestires aquela camisola? E disse-me o Futre então que já tinha passado por muito lugar, com muito adepto, com muita gente, mas … mas, disse-me, nada o preparara para um dia como o do primeiro treino. Não posso explicar-te, dizia, é difícil, é um mundo diferente, arrepia-te perceberes tanta grandeza.

E a final da Taça, Paulo, conta-me como foi! Foi uma tarde louca e mágica, foi uma tarde de muito mais que futebol, foi essa palavra que usam, foi místico, apetecia ficar parado no tempo e viver aquele momento sem querer que acabasse.

Voltei ao lugar e por mim estava feito o dia, já nem precisava de ver jogo nenhum, mas lá chegou o avião e seguimos para sul. Chegados ao Cabo, instalámo-nos e no dia seguinte tratámos de arranjar um táxi para dar um passeio e para nos levar ao Estádio. Perguntei ao motorista se conhecia o Benfica, sorriu e disse que não. E Portugal? Também não! Sentei-me no banco da frente e enquanto a malta se encantava com a paisagem contei-lhe do episódio do aeroporto, contei-lhe do Futre no Benfica. Depois falei-lhe do Chalana, do Vítor Batista, do Bento, do Eusébio, do Estádio da Luz em dias de enchente. Quando parámos para se visitar nem me lembro o quê .. o pessoal foi de máquina fotográfica na mão e eu fui beber um café com o homem.

Falei-lhe do Águas, do Coluna, do Enke, do Fehér, do Alves das Luvas Pretas, das tardes de noventa mil pessoas, ao sol ou à chuva, partilhando uma Vida e uma Paixão. No fim do passeio, já sabia um pouco de Cosme Damião, da água Vitória, do Rui Costa e até do Rogério Pipi.

Levou-nos então à bola e nós assistimos a uma goleada da selecção contra uns coreanos. Estava a chover e nem me aqueceu nem arrefeceu.

À saída, esperava-nos o Táxi Driver convertido. Não perguntou pelo resultado, disse-me apenas … João, are you going to tell me more stories about Benfica?

Contei. Mas mais que isso. Ofereci-lhe um cachecol que guardava há anos e que levava sempre para os jogos. Um cachecol fantástico encarnado e branco.

O homem comoveu-se e atreveu-se a dizer-me: tenho dois filhos, não posso levar só um! Pois não. Fui ao saco e tirei outro para lhe oferecer.

Um Pai é assim, ainda que tenha acabado de converter-se.
Não esquece os filhos.

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