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  • Jun 15 / 2015
Notícias

Análise às contas do Sport Lisboa e Benfica – Futebol, SAD

As contas consolidadas do Sport Lisboa e Benfica – Futebol, SAD, recentemente divulgadas, referem-se ao terceiro trimestre da época 2014/2015, ou seja, ao período compreendido entre 1 de Julho de 2014 e 31 de Março de 2015. As contas incluem, para além da Benfica SAD, a consolidação integral da Benfica Estádio e da Benfica TV, assim como o resultado da participação financeira na Clínica do SLB e no Benfica Stars Fund (extinto no primeiro trimestre). Estas entidades são referidas como “Grupo Benfica SAD”. A Benfica SAD detém 100% da Benfica Estádio, 100% da Benfica TV, 100% do Stars Fund (no período em análise, actualmente já não existe), 50% da Clínica do SLB e 2% da Benfica Seguros.

Não estão incluídas nas contas o Sport Lisboa e Benfica (clube), Sport Lisboa e Benfica SGPS, Sport Lisboa e Benfica Multimédia, Administração do Parque do Benfica – Soc. Imobiliária e Fundação Benfica. Pelo menos estas, provavelmente a lista não é exaustiva. Como tal, importa ressalvar que as contas referem-se apenas ao universo empresarial da SAD, excluindo algumas entidades que podem ser relevantes para a percepção completa da situação financeira do Grupo Benfica. O Sport Lisboa e Benfica (clube) e a Benfica SGPS, pelo menos, deverão ser particularmente relevantes.

No que se refere à Benfica SAD, a sociedade cotada com obrigações de prestação de informação ao mercado, assinala-se o detalhe da informação divulgada, que compara perfeitamente com a informação prestada pelas principais empresas, mesmo apesar de algumas insuficiências. Os anexos são bastante completos, detalhados e contêm notas explicativas que ajudam a compreender muitos dos temas menos evidentes. Este aspecto é positivo e merece ser elogiado. Refira-se que as contas trimestrais não são auditadas (só é obrigatório no final do exercício económico) mas, ainda assim, o detalhe com que são apresentadas induz bastante confiança.

Começando pelo comportamento das receitas operacionais, elas cresceram 6,7% face ao período homólogo, para €77,8 milhões. Note-se que estas receitas não incluem transacções de jogadores, trata-se apenas de proveitos da actividade corrente. Este é o aspecto mais positivo da gestão da Benfica SAD no passado recente. As receitas cresceram muito significativamente nos últimos anos, sendo expectável que se mantenham consistentemente próximo ou acima dos €100 milhões numa base anual. Este número é notável para um clube do campeonato português. Nos três primeiros trimestres, comparativamente ao ano anterior, as receitas da Benfica TV cresceram 26,1%, os bilhetes de época e cativos cresceram 14,3%, a publicidade e patrocínios e receitas corporate subiram 6,1%. A bilheteira caíu 27,1% mas este resultado está distorcido pelo facto de o jogo Benfica-Porto ter sido realizado apenas no 4º trimestre, pelo que os números não são ainda comparáveis. Pela negativa, destaca-se a quebra de 23,8% das quotizações, o que pode significar alguma erosão da base de sócios, sempre preocupante. Note-se que a Benfica SAD apropria-se de 25% do valor líquido da quotização recebida pelo clube, como contrapartida das vantagens que oferece aos sócios do Sport Lisboa e Benfica.

Do lado dos custos, a evolução é menos positiva. O total de cash costs, isto é, o total dos custos operacionais não considerando amortizações (que traduzem a mera depreciação contabilística dos activos e não representam um encargo financeiro de facto), ascendeu a €67,5 milhões (mais 2,8% do que no período homólogo). Os fornecimentos e serviços externos cresceram 4,6% e os custos com a equipa de futebol mantiveram-se em linha com os da época passada, embora nesta última rúbrica a componente fixa tenha caído 8,2% por contrapartida de um acréscimo de 39% da componente variável, o que não deixa de ser uma tendência positiva.

No geral, o total de receitas da actividade superou em cerca de €10 milhões o total dos custos da actividade, ao passo que no período comparável da época passada este saldo era de €7,8 milhões. Este valor representa 13,1% das receitas, um resultado razoável. Contudo, é ainda insuficiente para fazer face ao volume de dívida a pagar, juros a pagar ou investimentos a fazer. Estas necessidades ainda superam aquilo que é gerado pelo negócio. Só em juros da dívida, e já descontando os proveitos financeiros, o Benfica suportou €12,6 milhões nestes primeiros 9 meses. O total de juros pagos pela dívida foi de €16,8 milhões nestes três trimestres. Isto tem uma dimensão apreciável, note-se que representa quase 22% do total das receitas operacionais e quase 50% dos gastos com a equipa de futebol, para pôr as coisas em perspectiva. Os encargos com a dívida valem quase meia equipa de futebol.

Acresce um investimento em activos fixos (não inclui passes de jogadores) superior a €11 milhões, onde se incluem “obras de alargamento do Caixa Futebol Campus com a construção de novos campos relvados, investimento no novo simulador de treino do centro de estágios e instalação do novo sistema de som adquirido para o Estádio da Luz, a remodelação de espaços de apoio aos executive seats, entre outras obras de beneficiação realizadas nas diversas infraestruturas do Grupo.”

Este desequilíbrio tem que ser financiado ou pelos accionistas, através de aumentos de capital, ou pelos credores, através do aumento da dívida, ou pelos fornecedores, através do aumento dos prazos de pagamentos, ou através da venda de activos. No Benfica, no passado, estes défices foram financiados sobretudo por dívida (bancos e empréstimos obrigacionistas) ao passo que actualmente a alternativa mais explorada parece ser a venda de jogadores.

Entre compras e vendas de jogadores, nestes primeiros nove meses, o Benfica encaixou cerca de €38 milhões (recebimentos menos pagamentos). Obviamente que nem se paga tudo a pronto nas aquisições nem se recebe tudo a pronto nas vendas. Mas, em conclusão, entre recebimentos pelas vendas e pagamentos pelas aquisições foi obtido um saldo positivo nos primeiros nove meses de €38 milhões. Trata-se de uma estimativa porque as contas não incluem um mapa de cash flow que permita tirar isso a limpo. Fica aqui o reparo. Além disso o tema do Stars Fund dificulta a análise dos movimentos contabilísticos. Pode conter alguma imprecisão.

Em resumo, o cash flow nos primeiros nove meses da época 14/15 foi o seguinte (em milhares de euros):

Actividade: +10.222
Compra e venda de jogadores: +38.063
Investimento em infra-estruturas: -11.257
Saldos correntes fornecedores e clientes: -6.304
Juros Pagos: -16.762
Proveitos financeiros: +4.113
SALDO = +18.075

Como foi aplicado este saldo? No abatimento da dívida aos bancos (€7,1 milhões) e o restante mantém-se como disponibilidade de caixa, pelo que a dívida líquida (dívida aos bancos – disponibilidades líquidas de caixa) caíu cerca de €18 milhões, para €300,7 milhões no final de Março.

O passivo total é de €409 milhões e compara com um activo de 414,7 milhões, pelo que os capitais próprios são positivos e conseguiu inverter-se a falência técnica registada no final do primeiro trimestre. Neste ponto convém alertar para o seguinte: Uma das principais componentes do Activo é, obviamente, os passes dos jogadores. Simplesmente, as regras de contabilização dos passes dos jogadores podem ser muito penalizadoras para as SAD. Os passes devem ser registados pelo valor de aquisição e depois devem ser amortizados contabilisticamente ao longo da vigência do contrato.

Exemplo: Um jogador comprado por €10 milhões e contratado por 5 anos, é contabilizado no momento da compra por €10 milhões e deve ser amortizado em €2 milhões por ano (10/5). Isto é, no final do primeiro ano de contrato valerá 10-2=8, no final do segundo ano valerá 8-2=6 e assim sucessivamente, até valer zero no final do contrato. A conclusão óbvia é que isto pode não ter nenhuma relação com o valor de mercado dos jogadores. Num mundo ideal, os jogadores seriam contabilizados ao seu real valor de mercado, de modo a traduzir o real valor detido pelas SAD. Mas, na prática, um jogador com boa performance desportiva, que se valorize, estará contabilizado por um valor bastante inferior ao seu valor real. É claro que também há o caso inverso. Jogadores caríssimos, que rapidamente se percebe que valem perto de zero, mas que continuam com um valor contabilístico muito acima do seu real valor de mercado. Seria necessário conhecer os valores pelos quais estão contabilizados os diferentes jogadores para se ter uma noção de quão real é o valor do activo nas contas da Benfica SAD (e dos seus capitais próprios), algo que não está disponível nas contas trimestrais.

Em resumo, parece-nos que tem sido feito um muito bom trabalho de crescimento do negócio gerado pelo Benfica, sobretudo tendo em conta o limitado mercado nacional, mas os resultados obtidos até agora ainda são insuficientes, por si só, para assegurar o cumprimento das responsabilidades decorrentes da dívida acumulada nos últimos anos. E como a possibilidade do crescimento da dívida parece estar afastada, assim como uma injecção significativa de capital por parte dos accionistas da SAD, resta ao Benfica prosseguir a venda de activos (leia-se jogadores), a par de um esforço de aumento das receitas e de redução das despesas (jogadores mais baratos). Com isso, poderá começar a libertar os meios necessários para fazer face aos juros da dívida acumulada e permitir a sua redução. Obviamente que este processo também limitará a possibilidade de compra de bons jogadores no futuro e talvez não consigamos ter equipas tão competitivas como as dos últimos anos, o que por sua vez poderá comprometer o crescimento das receitas, é uma incógnita. Mas parece ser este o caminho. Temos feito e espera-se que continuemos a fazer um excelente trabalho no crescimento das receitas, mas está a começar agora a segunda parte, sempre mais difícil e dolorosa.

Prometemos voltar à análise destes temas em futuras divulgações de contas por parte do Benfica, todos os comentários e sugestões são bem vindos.

VIVA O BENFICA!

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